A
HISTÓRIA
DOS PRIMÓRDIOS DA SIBRA.
Um pequeno relato da história da imigração
judaico-alemã
no Rio Grande do Sul
Tentando traçar a trajetória dos
judeus–alemães
no RS, mais especificamente em Porto Alegre, é que temos,
sem a menor dúvida, que contar a história da
SIBRA já que uma é entrelaçada à outra
de forma indivisível.
Antes, tínhamos alguns poucos judeus-alemães
que por motivos profissionais aqui chegaram e ficaram. É o
caso do Sr. Kurt Weil que, jovem, aqui chegou em 1929 e que,
mesmo não fazendo parte de nenhum movimento imigratório,
foi uma pessoa fundamental para aqueles que a Porto Alegre vieram
em busca de um novo começo de vida. Foi pelo seu trabalho
nos bastidores, via amigos e advogados, etc... que muitos dos
judeus-alemães aqui chegados conseguiram regularizar
suas vidas no Brasil.
Dito por ele: "... Aqui não tinham "idish" alemães,
quando eu cheguei. Tinha um alsaciano, um suiço, e eu
fui amigo dele. Os alemães chegaram; os primeiros em 1933
e 1934. Foi minha prima, Marianne Silber, com o marido, que era
médico de crianças, Dr, Walter Silber. Foram os
primeiros."
Voltando ao começo da imigração,
a primeira família da chamada leva imigratória judaico-alemã chegou
a P.Alegre em 1934, a família do Sr. Max Stobetzki, mas
meses depois foi seguida por diversas outras. Esse pequeno agrupamento
foi o núcleo que gerou a formação da comunidade
judaico-alemã que veio a se desenvolver, rapidamente,
nos anos seguintes.
Chegando ao Brasil, os imigrantes
judeus alemães
sofrem o primeiro impacto depois de uma transferência traumática:
um mundo tropical, climática e culturalmente muito diverso
de sua experiência anterior profundamente germânica.
A língua representa também uma barreira de difícil
transposição e ao mesmo tempo um elo entre os que
chegavam.
Num primeiríssimo momento, o convívio
com os judeus que aqui já estavam, oriundos das levas imigratórias
do começo do século (russos e poloneses em sua
maioria), foi perfeitamente possível. Mas as diferenças
logo se manifestaram, inclusive o uso da língua idish
entre os demais, e que não era falado entre os alemães,
contribuindo para que sentissem a necessidade de formarem o seu
próprio grupo. Na medida em que famílias fugidas
da Alemanha nazista aqui aportavam, o núcleo foi se aglutinando
em torno da necessidade de conversarem e conviverem e, já nas
primeiras grandes festas do ano de 1934, havia quórum
suficiente para rezarem em casa de Max Stobetzki, sem precisarem
de outra sinagoga.
Além disto, "importaram" todo um
modus vivendi germânico, apenas dando um toque "tropical" necessário
pelas próprias condições precárias
de viverem seu judaísmo, e pelas condições
climáticas, sócio-financeiras, etc. Mesmo assim
podemos definir que, nesse primeiro momento, a adaptação
foi facilitada pela liberdade de ação e de ir
e vir que lhes foi proporcionada.
É
neste período que surge também a necessidade de
se reorganizarem religiosa e socialmente. Estes judeus foram
sentindo crescer um vínculo entre eles e buscaram a formação
do que viria logo ser a SIBRA.
Foram os integrantes do primeiro
núcleo (de
1933-36), que tomaram a iniciativa. A partir do fim de 1936, apesar
das
restrições imigratórias já muito
mais severas, começaram a chegar judeus-alemães
de todas as regiões da Alemanha, trazendo consigo uma
bagagem cultural ainda mais diversificada daqueles que aqui já estavam,
porém tendo em Hitler e no Nazismo o motivo da emigração
da Alemanha e da Europa.
Foi o medo pelo advento do Nazismo
o grande e talvez o único
motivo da imigração, já que a maioria não
tivera até então problemas de ordem econômica,
política ou social (inclusive religiosa) em suas cidades
de origem. Esse fato particular, até peculiar, diferente
de todos os outros agrupamentos e movimentos imigratórios,
tornou-se um elo muito forte, muito único entre os judeus-alemães.
Tínhamos numa mesma leva imigratória cidadãos
de cidades cosmopolitas (Hamburgo, Frankfurt, Berlim, etc..)
e cidadãos de cidades interioranas, sendo que, nestas últimas,
as tradições judaicas e a religião estavam
mais presentes na vida daqueles que de lá saíram.
O
elo com o judaísmo e com seus costumes alemães
foi o ponto de partida para criarem uma entidade que lhes desse
um endereço para encontros, para fazerem os serviços
religiosos, para trocarem informações e receberem
os novos imigrantes que começaram a vir em maior quantidade, à medida
que o nazismo tomava conta de toda região de fala alemã na
Europa. Um local onde pudessem usar seus livros de rezas, já na época
com transliteração para língua alemã,
cantar suas canções com as melodias tradicionais
de suas congregações na Alemanha, além das
outras atividades como jogos de cartas, apresentações
teatrais, cancioneiro alemão, etc..
A SIBRA foi fundada
em 29 de Agosto de 1936, nos altos da Confeitaria Rocco ¾ o prédio ainda existe,
bem conservado, no centro de Porto Alegre ¾ . Em sua primeira
Diretoria, constavam: Samuel Hess, Jean Strauss, Siegfried Epstein,
David
Windmüller, Kurt Weil e Nina Caro, passando esta última
a dirigir a "Frauenverein" , a ala feminina, e na
primeira ata, ainda as assinaturas de: Herbert Caro, José Windmüller,
Max Baumann, Ludwig Hain, José Warschawski, Herman Ritvo,
Josef Neumann, e Max Blumenthal.
Objetos sagrados preciosos salvos
da fúria nazista foram
doados à Sinagoga pelos novos sócios: os rolos
sagrados da Torah foram doados por David Windmuller, Siegfried
Weil, Josef Stiefel, Heinrich Epstein e Joseph Silber; o Shofar,
por Siegfried Weil e os enfeites dos rolos por Emil Bendheim.
Em
seus estatutos constavam como fins da Sociedade:
a - manter uma sinagoga para a prática do culto religioso;
b- manter uma Caixa de Beneficência;
c- facilitar aos associados o estudo da língua portuguesa
e da história do Brasil;
d- proporcionar aos sócios boa leitura, conferências
instrutivas, ......;
e- interessar-se pelo desenvolvimento espiritual e físico
dos associados.
"
...Judaísmo não fazia parte de minha vida, mas
Hitler mostrou a todos, rapidamente, o caminho de volta a ele." O
Herbert Caro saiu da Alemanha ainda em 1933; não esperou
mais nada ocorrer. "... Eu me filiei à SIBRA, inicialmente,
por simples solidariedade, ...... aos poucos, posso dizer, me
tornei realmente judeu."
Relatou-nos Margot Leventhal, filha
de Siegfried Bauman:
"
... lá se congregavam os judeus alemães de cidades
diversas e, à medida que vinham chegando, iam se assumindo
uns aos outros." " ... na SIBRA encontrava-se apoio
para tudo." "...tem até uma história
de uma casa de veraneio, em Ipanema, que a SIBRA alugava e passava
para famílias irem de duas ou de três em três,
por uns 8 a 10 dias, cada turma. Era um luxo, uma maravilha ..."
A
Sra Ruth Herz, nascida Stobetzki, contou:
"
... a impressão que tive do Pessach, em 1934 ¾ chegáramos
em janeiro ¾ , na sinagoga do Linet Hadzedek, foi horrível.
As pessoas conversavam alto, ninguém respeitava nada,
..."
"
...Os Sidurim adotados só tinham as rezas em hebraico,
enquanto que os nossos, e que trouxemos da Alemanha, já vinham
com a tradução em alemão gótico,
desde meados do século XIX..."
"
... e daí em diante meu pai resolveu que os serviços
religiosos seriam feitos em nossa casa para quem quisesse vir
...."
"
...O núcleo da SIBRA formou-se rapidamente e em 2 anos
ela foi formalmente e oficialmente constituída."
De Grete Bejzman, a filha de Max Blumenthal,
que dirigia o culto na sinagoga e cuidava de suas dependências
junto com sua esposa D. Lina, primeiramente, na sede da Av. Osvaldo
Aranha
e, após 1940, à rua Esperança ¾ nome
altamente sugestivo ¾ , hoje Miguel Tostes:
"
... e minha mãe começou a cozinhar. Essas pessoas
que se reuniam na SIBRA, que não tinham para onde ir,
almoçavam lá, e eu me lembro até hoje como
era servida a comida; ... judeus poloneses começaram também
a ir lá comer a comida Casher; ... a mãe começou
também a fazer tortas, e meu pai servia ..."
À medida que a simpatia do governo brasileiro de Getúlio
Vargas pendia para o lado das ditaduras nazi-fascistas européias
(de 1937 até 1941), surgia a necessidade de se adaptarem,
de aprenderem e de ensinarem a seus filhos os hábitos,
a língua e eles mesmos tentarem e se esforçarem
a uma adaptação mais rápida de um modo de
vida brasileiro e, no caso, gaúcho. Os filhos, em sua
maioria, foram estudar em colégios laicos, mesmo já havendo
uma escola judaica com ensino fundamental. Os meninos recebiam
a base do ensino religioso e as noções da língua
hebraica por parte dos infatigáveis Max Blumenthal e posteriormente
Klaus Oliven.
Foi o período mais difícil para todos
esses imigrantes que em pouco tempo voltaram a se sentir inseguros
e amedrontados.
Desde 1937, o Governo brasileiro fechara praticamente as portas à imigração
judaica. Nesta época foi importante o trabalho do Dr.
Miguel Weisfeld, nascido em Odessa, mas formado em Direito já no
Brasil, que paciente e abnegadamente explicava os "casos" às
autoridades e que muitas viagens fez até o Itamarati para
obter soluções favoráveis.
O vai-e-vem da
política interferia diretamente
na vida desse pequeno grupo. Quando o presidente Getúlio
Vargas aliou-se aos países anti-nazi-fascistas, foi proibido
o uso da lingua alemã em todo o país e, de novo,
esses judeus se sentiram confusos e extremamente perseguidos.
De
Claus M. Preger, médico, nascido em Porto Alegre,
filho de imigrantes alemães:
"
...Nasci em 1937, ano do início da 2ª Guerra Mundial.
O Brasil declarou guerra às nações do Eixo,
liderado pela Alemanha, em 1941, e a língua alemã tornou-se
proibida em lugares e reuniões públicas. Eu ouvia
- e disto me lembro muito bem - relatos de meus pais sobre amigos
presos, tendo seus rádios e outro bens confiscados, simplesmente
por falarem alemão na via pública. De nada adiantava
argumentar que eram judeus vindos da Alemanha por perseguição
nazista. Isto simplesmente me deixava apavorado. Recordo-me,
como se fosse hoje, de minha mãe e uma amiga falando em
alemão na Av. Borges de Medeiros, e eu lhe puxando a saia,
desesperado para que falassem em português ou que fôssemos
embora logo, antes que o Sol nascesse quadrado para todos nós.
Eu tinha quatro anos nesta ocasião. A língua alemã tornou-se
para mim a língua proibida. Ainda hoje, quando visito
a Alemanha, tenho dificuldades em ler e dialogar, em alemão,
nos primeiros dias. Após algum tempo, a língua
solta..."
A SIBRA além de tudo isso, teria o papel de "elo" entre
o agrupamento e a municipalidade ou o governo em si, uma vez
que a entidade foi fundada dentro da legislação
oficial e legal.
A programação de cunho cultural, quase
toda em língua alemã, sofreu à essa altura
descontinuidade, até o fim da guerra, em 1945. A SIBRA distribuia
carteirinhas entre seus sócios para identificá-los
como judeus, agora com a finalidade, nem sempre obtida, de convencerem
a polícia
de sua inocência e livrá-los da prisão,
por falarem a língua proibida.
Em seguida ocorreram os
primeiros casamentos entre os filhos deste agrupamento, ocorreram
as primeiras bar-mitzvot,
as brith-milot,
etc.. e a primeira bar-mitzvá foi a de Dagoberto Hauser
e a primeira brith-milá de um filho de imigrantes, já nascido
em Porto Alegre (março de 1937), foi a do colaborador
do presente trabalho.
Foi na SIBRA também que os pais procuraram
formar os primeiros núcleos juvenis para seus filhos, trazendo
pioneiramente líderes religiosos fato que não ocorria
em nenhuma outra entidade religiosa-cultural, com fins educativos.
A língua
portuguesa passou a fazer parte da transliteração
dos livros de reza (mais integração com o dia a
dia da vida no Brasil), algo inédito por aqui. Houve sempre
uma busca de lideranças mais envolvidas com a juventude,
preservando o cunho de ligação com a religião
e a tradição.
De lá para cá, muitos anos, muitas
diretorias e muitas gerações se passaram. Isto tudo
será contado à parte.
A disposição ao trabalho e a vontade de contribuir à continuação
e ao fortalecimento do judaísmo continuam da mesma forma
impulsionando nossas idéias e nossa iniciativa. Senão
vejamos ...