Ser judeu, não muda
Estamos mergulhando no futuro e não percebemos quão grandes são as mudanças que aconteceram e acontecem nas nossas vidas. Teríamos que sair da cena, e olhar as nossas próprias vidas desde outro ângulo. Imaginem uma conversa entre qualquer um de nós com seu filho ou seu neto, sentados numa praça, ou do lado da lareira, ou na hora que o pequeno está por dormir: na minha época, querido filho, quando falávamos de vírus, pensávamos primeiro que era numa pessoa que havia contraído uma doença. Hoje, quando falamos: "Está com vírus" o que pensamos primeiro é no computador. Conhecemos mais nomes de antivírus que de vacinas para seres humanos.
Deixa-me contar filho, que tua mãe e teu pai se conheceram "chateando" – o guri não precisa explicação, mas você pode ser que sim: Chat são aqueles locais virtuais onde se conversa pela Internet.
Quando tinha a tua faixa etária, sonhava em dar a volta ao mundo em cinco minutos, hoje sendo mais velho consegui: posso pular de Porto Alegre a Londres, de Londres a Paris, de Paris a Jerusalém, de Jerusalém a Rio de Janeiro, Buenos Aires e de lá voltar a Porto Alegre. O mais maravilhoso é que para recorrer o mundo, não preciso sair de casa, é só clicar o mouse.
Ah, as mulheres tinham nojo quando ouviam falar de um rato, hoje quase não há lar que não tenha seu rato "mouse" e ninguém sente nojo. Hoje, falar da TK 60 parece falar de pré-história.
Sabes quando era pequeno, queria ser mágico, e meu grande sonho era poder fazer o truque de sumir. Hoje, mais velho, eu consegui: é só desligar meu pager ou celular que ninguém consegue me achar. Ou quando quero um pouco de privacidade contigo faço o mesmo. "Privacidade" que palavra bonita, "privacidade" quão difícil de ter.
Sabes filho, na minha casa a TV era preto e branco, o jornal que recebíamos era preto e branco, na minha época era mais fácil ganhar um neném que ganhar uma linha de telefone fixo.
Ah, falando em telefone, quando queria uma ligação internacional tinha
que discar para o operador e nem sempre conseguia porque dava ocupado.
Na hora que minha mãe me levava ao armazém - porque super não existia, sem falar dos shoppings - eu me lembro que voltava carregado de refrigerantes em "garrafa de vidro".
O maior desafio era atravessar a rua com o carrinho e não quebrar nenhuma garrafa.
Me lembro quando no mercado surgiu a garrafa plástica de dois litros, ficamos tão surpresos como quando o homem chegou na lua.
Antes, assistir TV não era tão simples, imagina a família sentada comodamente no sofá da sala, e na hora da publicidade um pedia para o outro trocar de canal. Atualmente, o controle remoto restituiu a calma da família.
Na hora que falamos de premiar alguém, estou seguro que, sem dúvida, não ficaria de lado o inventor da tele-entrega. Aguardas com tanto fervor o motoboy da tele-entrega que parece estar esperando ao Mashiach - Messias.
Filho, sei que já é tarde, amanhã temos que estar na sinagoga para a reza de Shacharit matinal - comprei uma bonita kipá para ti, ah..... não esqueças de levar teu Machzor - livro de rezas -, o talit do tio José e o mel que pediu a bobe Rebeca. Boa noite filho, Shaná Tová!
Caro leitor, o mundo mudou e continuará mudando a passos gigantes, mas se olharem um para o outro poderão perceber que estamos em família. Que o Machzor é o mesmo que usou teu avô ou bisavô, que as melodias, as levamos no sangue, que a "essência" da nossa religião não mudou. Que continuamos respeitando e praticando as nossas tradições, tudo isso sem deixar de sermos modernos. Temos celular, controle remoto, computador, mas temos a Torá a mesma que foi entregue por Moshe para nossos antepassados.
Ser Judeu não muda, aí é que está o segredo da nossa continuidade. Shana Tova!
Prof. Guershon Kwasniewski
Líder Religioso da SIBRA
Rosh Hashaná 5761