SINAGOGA KAHAL ZUR ISRAEL- o Rochedo de Israel em Recife - Parte 2
Parte II
A Comunidade
O governador e capitão-mor João Maurício de Nassau necessitava dos judeus de Amsterdã por conhecerem a língua da nova colônia, servindo de intérpretes entre holandeses e portugueses, e por seus dotes comerciais, razão da contínua migração, fazendo com que alcançassem o expressivo número de 600 famílias no auge da colonização. Os judeus, cujos antepassados haviam chegado à Holanda fugitivos ou expulsos pela inquisição portuguesa desde 1497, encontraram no Brasil, sob a proteção de Nassau, a mesma liberdade religiosa da metrópole holandesa. Somaram-se aos marranos, já presentes no Brasil, vindos de Portugal desde o descobrimento (Gaspar da Gama, que acompanhou Cabral como perito e intérprete, teria sido o primeiro cristão-novo a pisar em solo brasileiro).
Os judeus, além de bons comerciantes, foram também senhores de engenho, profissionais liberais (Abraham de Mercado, médico e Michael Cardoso, advogado) e construtores (Balthasar da Fonseca). Na zona portuária de Recife, foram construídos diversos quarteirões de residências e casas comerciais, sobrados que, após alguns reparos, se mantêm até hoje. Em fins de 1664 chegaram a existir 2.000 casas de judeus. Um verdadeiro "boom" imobiliário.
Em 1639, a comunidade construiu sua sinagoga Kahal Zur Israel e mandou vir o famoso rabino de origem portuguesa, Isaac Aboab da Fonseca que dirigiu o Ichuv até os últimos dias da ocupação holandesa. A importância da comunidade era tal que Isaac Aboab veio acompanhado de outro líder religioso, Moses Raphael de Aguilar, a fim de orientar a escola religiosa.
Em 1654, com as últimas batalhas vencidas pelas forças portuguesas, os judeus receberam das autoridades portuguesas o prazo de três meses para abandonar a colônia, não sem antes desfazer-se de seus bens, é claro. Tomaram o caminho de volta à Holanda ou seguiram para o Caribe e para a América do Norte, onde se integraram à Nova Amsterdã, o núcleo que, posteriormente, formaria a cidade de Nova Iorque. Outros, ainda, se dispersaram pelo interior de Pernambuco onde se assimilaram gradativamente (é o caso da família de Alexandre, nosso companheiro de visita ao Centro de Cultura Judaica, e que nos revelou que procurava conhecer suas origens).
O Rabino Isaac Aboab retornou à Holanda e alguns anos mais tarde, em 1657, tomou parte do tribunal rabínico que excomungou Baruch Espinosa, num episódio algo menos glorioso da nossa história.
A história da comunidade judaica flamengo-portuguesa por si só é eletrizante e rica em detalhes. Seu resgate pelos arquivos históricos do Centro Cultural Judaico de Pernambuco aliado ao brilhante sol de Recife, à hospitalidade, gentileza e bom humor de seus habitantes, ao artesanato típico da região, ao calçadão da praia da Boa Viagem, à beleza das cores, das ruas e das paisagens de Olinda justifica plenamente uma demorada visita ao longínquo Estado de Pernambuco.
Claus M. Preger