SINAGOGA KAHAL ZUR ISRAEL- o Rochedo de Israel em Recife - Parte 3
Parte III
O Êxodo - A Saga dos 23 "Pilgrims" judeus
Os termos da capitulação das forças holandesas frente à armada brasileira e portuguesa comandada pelo General Francisco Barreto de Menezes, assinada em 26 de janeiro de 1654, continha vários capítulos referentes à população judaica de Recife e arredores: os judeus que não haviam se convertido poderiam permanecer em terra brasileira e teriam garantida a liberdade religiosa - não se sabe quantos, realmente, permaneceram e se dispersaram pelo interior de Pernambuco; os que não quisessem ficar e os judaizantes, convertidos que voltaram a professar as tradições judaicas, tinham o prazo de três meses para abandonar o território, podendo levar toda propriedade móvel, e somente a móvel, e víveres para a viagem.
O General Francisco, que já havia sido capturado em outra escaramuça, e fugido da prisão holandesa exatamente seis anos antes da capitulação flamenga, certamente com alguma facilitação de seus carcereiros, se mostrou especialmente magnânimo com os derrotados, protegendo e respeitando sua integridade física e chegando a ceder-lhes caravelas e barcos.
Muitos judeus voltaram à Holanda, outros se dirigiram às ilhas do Caribe e um terceiro grupo, de vinte e três, foram parar na Jamaica levados por ventos desfavoráveis a bordo do Valck, sendo aprisionados pelos espanhóis. Estes, evidentemente, fizeram menção de entregá-los à Santa Inquisição espanhola, o que provocou intensa movimentação diplomática, na época, no sentido de tentar libertá-los. Foram, então, enviados ao cabo de Sto. Antônio, em Cuba e, de lá, embarcaram na fragata francesa Sainte Catherine rumo a Nova Amsterdam.
Os vinte e três Pilgrims judeus, formados por quatro homens adultos, seis mulheres adultas, duas das quais eram viúvas, e treze jovens e crianças, aportaram nos primeiros dias de setembro de 1654. Alguns dias após, em 12 de setembro, seria o Rosh Hashanah de 5415. As rezas de Ano Novo judaico certamente tiveram minyan, pois, além dos homens adultos e dos jovens Bar Mitzvot, já se encontravam no local dois ou três remanescentes da antiga comunidade de Recife.
Imaginem a cena, digna de um filme de Spielberg:
"Vinte e três judeus magros e esfomeados, barbudos, vestidos de preto e maltrapilhos são aprisionados na costa da Jamaica por piratas espanhóis que querem vendê-los como escravos. Impossível, concluem, ninguém daria nada por eles, naquele mísero estado.
São judeus? Então vamos entregá-los à Santa Inquisição.
Felizmente, eles acabam sendo salvos por franceses, a bordo do Sainte Catherine.
D'us abençõe Santa Catarina!
Isto é um ultraje, ela é uma goische.
É , mas afinal, D'us é único, e ela nos salvou de voltarmos a ser escravos.
Algumas semanas após, chegam, à noite, ao porto de Nova Amsterdam, todo iluminado por tochas, uma delas segura por uma mulher alta e forte, vestida de branco, com uma coroa na cabeça e chamada Liberty. Desembarcam, prostram-se sobre a terra, beijam o solo e dançam até o amanhecer. Banham-se no rio Hudson, as mulheres se purificam e todos se preparam para as preces de Rosh Hashanah, o primeiro Ano Novo na ilha de Manhattan, no berço do que viria a ser a maior comunidade judaica mundial".
Os acontecimentos não transcorreram bem assim. Logo que chegaram, tiveram seus bens leiloados para pagamento das dívidas contraídas com a viagem, de 2.500 gilders. Serviu de assistente, o advogado Salomon Pietersz que era um daqueles poucos judeus que já se encontravam no vilarejo e cujo nome consta em documentos da Sinagoga Kahal Zur Israel como pertencente à comunidade de Recife.
Nada foi fácil e as amarguras e perseguições continuaram especialmente com os Puritanos e com os Jacobinos, aqueles que desembarcaram em Plymouth, em 1630, vindos da Inglaterra pelo Mayflower, a viagem épica dos 101 Pilgrims.
Até que, cem anos depois, o Presidente George Washington visitou a Sinagoga Touro, em Newport, da comunidade sefaradita descendente das 15 famílias judias portuguesas e espanholas, que em 1658, pouco depois da vinda dos nossos 23 a New Amsterdam, chegaram a Newport.
Da visita resultou a célebre carta escrita por Washington, em 1790, que se tornou a expressão clássica da liberdade religiosa na América. A Sinagoga Touro, já inaugurada em 1763, é a mais antiga ainda em funcionamento em terras americanas e contem uma réplica da carta.
Só a partir de então, a liberdade e a redenção alcançaram os filhos de Israel, no Novo Mundo.
Para quem quiser se aprofundar no assunto, sugerimos as publicações da Prof.ª Tânia Neumann Kaufman (A Presença Judaica em Pernambuco. Recife: Edit. Ensol, 2001); do Prof. José Antônio Gonsalves de Mello ( Gente da Nação. Recife: Edit. Massangana, 1989) e de Arnold Wiznitzer ( The Exodus from Brazil and Arrival in New Amsterdam of the Jews Pilgrim Fathers, 1654. PAJHS 1954; 64: 87-94).
Claus M. Preger